segunda-feira, outubro 03, 2011

Há um bar junto a uma calçada estreita e esburacada, devidamente tapeteada pela sombra. Aparentemente banal e pouco frequentado, é difícil estimar que atractivos realmente mais teria este pequeno recato, para quem inadvertido se deixasse tropeçar pelas curvas tortas da ruela.

Repleto da coloração que lhe dá uma colecção difusa de pequenas peças impressionistas, de pinceladas que evidenciavam uma espécie de luta para não recair na pureza da respectiva abstracção, o ambiente é indefinido. O dono apoia-se no balcão de madeira mal conservada enquanto fita um pouco abandonadamente o espaço comum.

A noite tinha tudo para ser costumeira. Por algum acaso desta, ou apenas por falta de alternativas, alguma clientela dispersa chegava para discretamente recostar-se indistinta, em geral fazendo-se acompanhar de uma aguardente por cabeça. Assumindo como que o papel contratado de consumidores, as pessoas deixavam-se enquadrar perfeitamente na tela desta observação. Assim o conjecturava o dono do espaço, preocupado com as repercussões das presenças física e metafísica deles nas dimensões da arquitectura circundante e conjunta, concentrado em particular na ausência de enredo que as interligasse, na intangibilidade do significado que imperava cada semblante, e em como era manifesta a sequência de imprecisões erráticas que prenunciava sempre a inconclusividade acompanhante da sua mesma extinção, sobressaindo tudo isto à semi-distância deste bem posicionado espectador. Descrevia essa sensação de conluío das formas com a curvatura progressivamente mais acentuada do arco do seu olhar, do seu corpo apoiado na mesa, e do próprio enfoque da sua observação. A nitidez do tédio era crescente e inevitável; como um animal mitológico que se alimentasse de sonhos, impunha-se gigante no centro da sala a bafejar todo o ambiente de uma opacidade turva, e trazendo assim fatidicamente ao bar a única qualidade omnipresente que antes se tinha apontado por omissa.

Mas esta não era uma noite costumeira.